Boneca Má – Parte 1

Parabéns para você, nessa data querida. Muitas felicidades, muitos anos de vida!

Finalmente! Pensou Bianca. Estava tão feliz que sentia uma espécie de frio na barriga, mas não era aquele friozinho de ansiedade ou nervosismo, era emoção e muita felicidade. Estava esperando por aquele momento há mais de seis meses. Ela finalmente completara seus nove anos, mas não era por isso que estava tão animada, mas sim pelo que viria a seguir.

– Você comprou papai? Comprou? – pulou e gritou em cima do pai, implorando pelo tão esperado presente.

Bianca estava esperando o melhor presente de todos. Uma linda boneca de luxo, que cantava e falava frases em francês. Era a melhor boneca de todas, ela tinha um metro de altura e a textura de sua pele era tão macia e real. Possuía cabelos ruivos e lisos e usava um lindo vestido verde.

– Esse é o melhor presente do mundo, obrigado papai!

Ela beijou e abraçou o pai com tanta força que quase o sufocou. Bianca abriu a caixa com veracidade, não via a hora de tirá-la de dentro do embrulho e usufruir de sua diversão. As outras crianças olhavam para Bianca e seu novo brinquedo intrigadas, jamais viram tamanha alegria por causa de uma boneca, porém para outras crianças era compreensível, algumas delas a invejavam, era o sonho de consumo para qualquer garota louca por bonecas.

Alguns passos dali estavam os pais, distraídos uns com os outros, inclusive o pai da aniversariante, que o olhava para a filha com ternura e satisfação.

– Ela adorou o presente – disse uma mulher se aproximando do rapaz.

– Oi Lúcia, não sabia que tinha vindo.

– Eu trouxe a Ritinha para brincar um pouco, ela se sente tão sozinha. Eu tenho andado meio preocupada com ela, ela age de um jeito esquisito às vezes.

– Esquisito como?

– Não sei, às vezes ela olha para algum lugar vazio e fica olhando como se tivesse vendo algo. Um dia peguei ela conversando sozinha.

– Crianças dessa idade costumam ter amigos imaginários, principalmente quando elas se sentem sozinhas, não precisa temer.

– Eu sei, é que…

– Não se preocupe – interrompeu, – quando a minha esposa morreu, Bianca passou algum tempo agindo de forma estranha, mas porque ela se sentia sozinha. Depois que comecei a passar mais tempo com ela, percebi uma melhora em seu comportamento. Você deve apoiar e sua filha e dar muita atenção a ela.

– Você é um homem e tanto.

Carlos olhou para a mulher, ficou pouco confuso, não sabia se aquilo se tratava de uma cantada em uma hora totalmente indevida, ou se passava de um ingênuo elogio. De qualquer maneira resolveu não considerar.

A noite passou muito rápido. Às dez a festa já havia acabado. Bianca se despedira de todos, estava ansiosa para brincar melhor com sua boneca, mal aproveitara direito, as meninas ficavam pegando para ver e não dera tempo de ela usufruir de seu próprio presente. Mas enfim, estavam a sós.

– Preciso de um nome para você, mas qual? – não houve resposta, embora a boneca não tirasse os olhos da menina.

– Que tal Madame Cherrie? Aliás, você é francesa, né?

A boneca continuou em um mudo absoluto.

Bianca toucou em seu braço e disse:

– Madame Cherrie!

Então houve um retorno:

Salut, mon nom est Madame Cherrie!

Bianca soltou uma enorme gargalhada. A boneca tinha reconhecimento de voz e era possível cadastrar informações em seu banco de dados para que ela usasse como respostas e reaproveitasse em outras frases. Sem dúvida era tecnologia de ponta.

A porta se abriu.

– Filha ainda está acordada? Vai dormir, amanhã você brinca mais.

– Tudo bem papai.

Bianca pegou Madame Cherrie e colocou cuidadosamente ao seu lado na cama.

– Vai dormir com a boneca?

– O nome dela é Madame Cherrie e ela quer dormir aqui também.

Carlos fez uma cara estranha, mas não contrariou a filha, sabia que desde a morte de sua mãe a pobre garota passara a se isolar em um mundo imaginário. Ele não queria que a filha virasse uma dessas doidas que fala com brinquedos, mas no momento era mais seguro, pelo menos era uma forma de impedir que a filha sofresse mais pela falta da mãe. Talvez essa Madame Cherrie fizesse mesmo bem para ela. Pensou.

Não podia estar mais errado.

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Conto dos Mortos – Parte Final

A noite estava bela. A lua cheia irradiava sua gloriosa magnitude. Eu sabia, era a noite perfeita para uma morte gostosa e divertida. Isso para Martin, ele tinha calculado os mínimos detalhes, desde como escolheria sua vítima até onde e como se livraria de seus restos mortais. O que descobri também é que ele era um brilhante roteirista. Ele escreveu toda a rotina desse dia tão esperado, que parecia um filme, e posso dizer que particularmente eu assistiria esse filme. Mas, enfim, Lucy e eu também não estávamos atrás, também nos preparamos para a nossa brincadeira não tão divertida assim. Acredite se quiser, isso vai doer bem mais em mim do que nele. Mas o que precisava ser feito iria ser feito.

Martin chegou. Como eu previa, estava acompanhado de sua próxima vítima, e assim como Lucy, também era uma jovem garota dos caminhos da perdição. Mas essa era diferente; Lucy era uma garota com beleza angelical e infantil, mas essa tinha um olhar malicioso e sua sensualidade era apimentada e extremamente fatal. Era uma bela mulher loira com olhos penetrantes e intimidadores. Tenho que confessar que fiquei surpreendido pela escolha do meu amiguinho psicopata, ele era do tipo que escolhia as vítimas mais fáceis e vulneráveis, parece que dessa vez ele queria um pouco mais de ação.

Os dois não perderam tempo, mal entraram no quarto já estavam todos despidos e se esfregando. Martin não era chegado em preliminares, ele já chegou colocando a puta de quatro e começou a se deliciar com aquele frenesi. Pude notar o horror nos olhos de Lucy, ela sentia repugnância daquele desgraçado. Fiquei com pena dela, mas também fiquei mais feliz, agora eu tinha certeza absoluta de que ela não iria dar para trás, ela iria fazer o que fosse preciso para impedir Martin.

– Não perca o foco, nós treinamos isso o dia todo. Precisamos nos concentrar e assim vamos conseguir influenciá-la – eu disse para a garota. Ela fez um sim com a cabeça, não disse uma palavra, apenas olhava com ódio mortal para a cara de prazer e excitação de Martin.

Assim que eles terminaram ficamos atentos, sabíamos o que viria em seguida.

– Lucy é agora…

– Posso tomar um banho? – Era a voz da prostituta, irei chamá-la de Laura.

Eu me distraí por um tempo, Martin estava deitado e relaxado, não tinha a atitude de alguém que estava prestes a matar. Fiquei confuso, aliás, ele estava se preparando por esse momento há dias. O que estava esperando? Será que tinha outros planos? Será que iria matá-la um pouco mais tarde? À meia-noite?

– O que houve? Por que parou? – indagou Lucy.

– Tem algo errado, ele ia matá-la agora, mas não matou.

– Perfeito, então vamos aproveitar o momento e fazer ela matá-lo.

– Ok.

Nos concentramos e nada aconteceu. Não entendi, ela não estava sendo atingida por nossa influência, não conseguimos possuir o corpo daquela desgraçada.

– E agora? Ela vai morrer! Achei que você sabia o que estava fazendo!

Lucy estava desesperada. Eu também estava.

– Eu estou tão confuso quanto você, eu sabia exatamente o que fazer, mas não está dando certo com ela.

– E como sabia se daria certo? Você já possuiu alguém antes?

-Não.

Ela me olhou com desprezo e raiva, ela me mataria se pudesse. Começou a berrar e a gritar, eu tentei acalmá-la, mas não adiantava. De repente as luzes começaram a piscar, a porta do quarto bateu, as janelas se fecharam. O quarto ficou lacrado e escuro.

– Que merda é essa? – disse Martin apavorado. Eu estava com tanto medo quanto ele, mas foi gratificante ver sua cara de espanto.

Os móveis do quarto começaram a cair, os livros foram arremessados contra a parede, um deles voou contra a janela e despencou andar a baixo. Martin ficou realmente desesperado. Mas agora eu estava preocupado com Lucy, eu nunca a vi assim antes; sua aparência juvenil e angelical havia desaparecido, ela estava mais parecida com um demônio.

Laura saiu do banheiro totalmente nua e molhada, começou a gritar também.

– Que merda é essa?! Eu quero sair daqui!

– Cala a boca sua vagabunda, quer atrair atenção para cá?

Martin pegou uma navalha que estava no bolso de sua calça e pulou em cima da mulher, porém ela havia percebido, e antes mesmo de Martin chegar a um centímetro de seu pescoço, ela havia jogado um abajur em sua cabeça.

Martin cambaleou e caiu. Laura não perdeu tempo, calçou seu tamanco e começou a pisar na cabeça do infeliz.

– Seu desgraçado! Quem você pensa que é para tentar me matar? Veado, filho da puta!

A cabeça de Martin estava toda furada do salto de tamanco, mas o infeliz ainda estava vivo. Eu não conseguia parar de admirar aquele momento tão inusitado. Depois de esburacar a cabeça de Martin, ela pegou o canivete que estava preso na mão do rapaz e sem hesitação enfiou em sua jugular, e para encerrar cuspiu na cara dele. Eu sabia, aquela mulher não era flor que se cheirasse, desde o começo eu sabia. Fiquei impressionado, mas fiquei mais ainda quando ela olhou em minha direção e deu um sorrisinho e uma piscada de olho. Fiquei paralisado, meus olhos não conseguiam nem piscar, eu fiquei sério e extasiado. Olhei para o lado para ver a reação de Lucy, ela não estava mais lá.

Laura me encarou mais um pouco, depois foi para a porta do quarto, me deu um tchauzinho e saiu. Eu fiquei lá, com minha cara de debiloide, apenas olhando a saída triunfal daquela “femme fatale”.

– O que aconteceu?

Olhei para o lado e vi nada mais nada menos que Martin, um garoto perdido e sem rumo que não fazia a menor ideia do que estava acontecendo.

– O que houve?

– Você morreu Martin.

– Por que?

– Ainda pergunta por que? Você foi um tremendo filho da puta.

– Eu conheço você, não é aquele antigo morador daqui? Aquele que se matou com veneno de rato?

– É, nós dois causamos nossa morte, e estamos condenados a passar o resto de nossa existência na solidão eterna. Mas juro que pensei que quando morresse você iria para o inferno.

– Quem se mata também não vai para o inferno?

– É o que eu pensava também.

– E agora?

– Bom, parece que agora só nos resta  conversar para passar o tempo, e distrair um ao outro. Te observei durante anos, te considerava meu companheiro de quarto, parece que agora vamos ser  de verdade.

Ficamos mais ou menos um mês juntos. Parece estranho, mas conhecendo Martin melhor eu passei a me simpatizar com ele. Parece que ele só era mais uma vítima do mundo chato e sem graça que vivemos. Como uma forma de escape ele buscava assumir a identidade de seus ídolos de filmes de terror e saborear uma diversão peculiar, ele era insano, isso é fato, mas no fundo não era um cara ruim. Depois de algum tempo nossa casa foi invadida e o seu corpo descoberto. Depois desse dia não vi mais Martin, não faço ideia do que aconteceu com ele, e também Lucy, que havia ganhado uma nova oportunidade. Estava feliz por ela, de uma certa forma acho que ajudei.

Bom, eu continuo aqui, observando cada membro que passa uma temporada com esse pobre fantasma. Um casal de gays com fetiches bem estranhos, uma mulher que era constantemente agredida pelo marido, um pai com dez filhos… Atualmente eu faço companhia a uma adolescente de quinze anos adepta ao sobrenatural, ela até tem uma tábua ouija, estou esperando ela usar para falar com ela, acho que podemos ser bons amigos.

Conto dos Mortos – Parte 2

Meu companheiro de quarto voltou para seu refúgio. Estava calmo e com uma satisfação cínica em sua face esquálida e pálida. A nossa nova acompanhante o olhava fixamente, não dizia  uma palavra, mas pude perceber o rancor e ódio que armazenava em sua aura. Eu queria poder dizer palavras de conforto, ou qualquer coisa que pudesse deixá-la mais calma, mas não podia. O que iria dizer? Para perdoar seu cruel assassino e seguir em frente? Claro que não, eu não era a pessoa mais indicada para dizer dar tal conselho. Eu sabia do que ela precisava, a única coisa que deixaria sua alma em paz, e de certo modo a minha também. Não poderia permitir que um lugar onde passei momentos marcantes da minha existência virasse um antro de carnificina e maldade. Eu poderia fazer alguma coisa, e iria fazer.

– Qual era o seu nome?

– Lucy.

Deixarei claro aqui, o nome dela na realidade era outro, mas por questões éticas a chamarei de Lucy. Bom, para minha narrativa ficar mais fluida podemos dar um nome também ao nosso querido facínora,  o chamarei  de Martin.

– Lucy, o que você está sentindo nesse momento?

– Eu não sei, não sinto nada.

– Digo, o que você sente de verdade? Lá no fundo da sua alma.

– Sinto raiva…angústia…medo.

Isso era um mau sinal, eram os mesmos sentimentos que eu senti quando passei para meu estado de pós-vida. Obviamente os motivos que ainda me prendiam ao plano material. E iria acontecer a mesma coisa com aquela garota. Por um lado seria bom ter companhia, ter alguém para conversar. Mas era errado, eu tinha que ajudá-la a evoluir, e com isso quem sabe ajudar a mim mesmo.

– Tem um jeito, talvez, de ajudá-la a seguir em frente –  eu disse para ela.

– Tem mesmo? Como?

Percebi uma empolgação. Fiquei feliz. Ela realmente desejava seguir em frente, ao contrário de mim quando eu morri.

– Para que você possa encontrar a luz é necessário que você se sinta em paz, e para isso precisamos chegar à justiça.

Ela me olhava com atenção, estava mesmo decidida a fazer o que for preciso para atravessar o véu.

– Nós teremos que levar seu assassino à justiça.

– Matando ele? – apontou para Martin que estava deitado na cama, todo triunfante, dava até nojo de ver.

– Temo que sim.

– Mas vingança não é errado?

– Isso não é vingança, é justiça. Vamos evitar que ele mate outras jovens como você, e fazer com que você possa ficar em paz.

– Não sei se isso é certo.

– Me responda, se isso não é certo, por que continua aqui?

Ela não respondeu.

– Você se sente mal, se sente amargurada e injustiçada. Esse sentimento só vai embora depois que você finalmente ter sua justiça. É isso que acontece com os todos os espíritos.

Ainda percebi uma certa insegurança. Lucy não era uma pessoa vingativa e má, eu também não sou, mas às vezes precisamos fazer o que é certo. Matar Martin era o certo nesse momento.

– E como matá-lo? Não podemos nem tocar nele. Estamos mortos.

– Isso não quer dizer nada. Podemos agir do nosso modo. Mas para isso será necessário um sacrifício.

– Que tipo de sacrifício?

– Sacrificar nossas virtudes para um bem maior. O que iremos fazer será algo que nos marcará para sempre. Mas tudo é válido para alcançar os céus. Concorda?

– Acho que sim, não sei.

Lucy ainda estava meio confusa, meio abatida e duvidosa. Acho que ainda não confiava em mim. Achei um tanto ofensivo, aliás, eu era a única pessoa ali que estava disposta a ajudá-la, o mínimo que ela devia fazer é se entregar de cabeça à minha engenhosa ideia.

– Primeiro vamos precisar encontrar uma forma de atingi-lo fisicamente. Precisaremos de um intermediador.

– Não entendi.

Eu não queria falar as coisas diretamente ao ponto, poderia parecer um pouco agressivo, mas de qualquer maneira ela iria entender, então não pensei e falei.

– Precisamos de alguém para que possamos induzir a matar.

– Está falando de possessão? Você quer possuir uma pessoa e fazer ela matar para a gente?

Ela me pareceu mais calma do que o previsto.

– Eu não entendo muito de vida espiritual, mas sempre ouvi dizer que é errado, espíritos bons não entram em pessoas.

– Espíritos bons não ficam presos em um lugar. – Falei sarcasticamente. Depois senti uma pontada de arrependimento, acho que fui duro demais com a garota. – Desculpa, eu sei que não é fácil, mas as coisas não se resumem simplesmente ao bem e ao mal. Tudo é tão maior que isso.

– Está bem, eu aceito. Não quero passar aqui o resto da minha vida.

Ela fez uma cara cômica. Também aquela última frase era um tanto irônica, se fosse em um outro momento, talvez, daria incríveis gargalhadas. Mas resolvi apenas abaixar a cabeça.

– Como vamos fazer isso? Como vamos possuir alguém? – perguntou a garota. Vi determinação em seu olhar, pela primeira vez.

– É a primeira vez que ele matou uma pessoa. Ele sentiu o prazer de ter o sangue derramado em seus braços. Isso é como crack, depois da primeira vez, vicia. Se ele não matar novamente ele vai sofrer de abstinência. Em breve ele vai matar de novo, e é aí que agimos.

Não demorou muito, na noite seguinte Martin já se preparava para mais uma rodada de sexo e morte. Ele não imaginaria que seria a morte dele.

Conto dos Mortos – Parte 1

O que vou lhes contar agora aconteceu há muito tempo. Eu normalmente não conto esse tipo de coisa para todo mundo, é um pouco difícil de acreditar, mais não tenho mais ninguém para desabafar. Talvez você seja meu único amigo, isso mesmo, eu estou condenado à solidão eterna. Ter que falar com pessoas que nem conheço. Mas isso não vem ao caso, não estou aqui para contar sobre minha “vida” miserável. Quero contar um fato. Ele aconteceu aqui mesmo, no meu pobre quarto. Eu estava acompanhando seu novo morador em uma maratona de filmes “Gore”. Era incrível ver a satisfação nos olhos do meu ilustre companheiro de sono. Ele gostava do que via, era um prazer tão vívido e ao mesmo tempo tão reprimido. Era como se ele se imaginasse em cena, na pele do assassino ou da criatura grotesca. Aquele sorriso psicótico me assustava às vezes. acho que ficamos umas seis horas assistindo. Finalmente terminou. Ele pegou os dvds e foi devolver na locadora. Eu fiquei no quarto refletindo; eu tentei desvendar o que se passava na mente do meu demoníaco inquilino. Alguma coisa nele não me cheirava bem, sempre que eu me aproximava eu sentia uma espécie de aflição. Eu não tinha nada contra ele, aliás, parecia um cara bem pacato e sem graça. Passava o dia inteiro no trabalho. Ele era atendente em uma loja de informática. Depois voltava para casa, tomava banho, jantava e dormia cedo, às vezes variava e dormia um pouco mais tarde para ler algum livro ou ver algum filme. Aos fins de semana ele ficava o dia inteiro navegando na internet ou vendo mais filmes sanguinários e mórbidos. Era o cara mais sem graça que poderia existir na face da Terra, mas eu não o critico por isso, minha vida não era tão diferente da dele, pelo menos agora não. O que me perturbava era algo mais sutil, era o que as pessoas chamam de sexto sentido. Uma percepção sensorial altamente psicológica ou até mesmo espiritual.

Ele voltou! Passara menos de dez minutos e ele já havia voltado. Mas para meu espanto ele não estava só. Estava acompanhado de uma bela mulher, uma linda e morena mulher com curvas exuberantes e uma sensualidade extremamente excitante. Eu fiquei boquiaberto, nunca presenciei algo como aquilo. O meu nobre companheiro não hesitou em tirar a roupa da meretriz e a empurrou na cama e rapidamente subiu em cima dela. Eu não queria presenciar aquilo, mas não pude evitar, infelizmente o voyerismo é um pecado ao qual não podemos escapar, é uma característica obrigatória em todo ser humano morto ou vivo. Eu observei aquele momento com muita atenção. Eu senti vergonha, não nego. Mas acima de tudo senti muito prazer. Observar aquele rapaz tomando o corpo daquela vadia de forma tão animalesca fez eu me sentir tão vivo e tão quente, como eu não me sentia há muito tempo. Acho que eles passaram uns trinta minutos naquele ritmo tão invejável. Finalmente eles gozaram. Eu pude sentir a total satisfação dos dois, eu realmente pude sentir como se eu tivesse ali. Eu me senti estranho por esses pensamentos, mas evitei muitos questionamentos, tinha outras coisas para pensar, como por exemplo, os olhos do rapaz. Eles pareciam exatamente como estavam há um tempinho atrás. Aqueles olhos negros e doentios, que exalavam seu belprazer. Ele se levantou e encarou a prostituta de cima. Ele sentou em cima da barriga dela e começou a passar a mão em seu belo rosto. A moça mantinha a cara de espanto. Eu não tinha mais dúvida nenhuma, sabia exatamente o que iria acontecer.

Ele rapidamente pegou uma faca que estava camuflada na fronha do travesseiro e em um único movimento atravessou seu abdômen, e puxou com força com a esperança de trazer suas tripas para fora. A mulher gritou, relutou, esperneou e até lutou, mas era inútil, sua sentença de morte já estava escrita. Ele saiu de cima dela e começou a rir loucamente. Eu não sabia como reagir, fiquei paralisado, eu não conseguia acreditar no que estava vendo. A pobre infeliz vomitava enormes bolhas de sangue, tentava falar alguma coisa, mas era impossível expelir as palavras. O psicopata então a pegou novamente e a esfaqueou várias vezes. Os olhos, a boca, os braços e por último a garganta. A vida já havia desabitado o corpo daquela criatura, mas não era suficiente, o infeliz continuou estraçalhando aquela casca vazia e podre. Eu continuei em choque, estava sendo testemunha de um assassinato em meu próprio quarto, e não podia fazer nada.

Após a diversão, o louco resolveu se limpar e sumir com os vestígios de sua desvairada brincadeira. Picotou o corpo da mulher em pedaços e guardou dentro de um saco plástico. Passou o resto da tarde conversando com pessoas numa sala de bate-papo na internet. Quando anoiteceu, ele levou a sacola com os pedacinhos de carne pútrida para o seu carro e sumiu. Certamente levaria para o desconhecimento eterno.

– O que aconteceu?

Ouvi uma voz feminina. Era ela, a vítima do meu amigo psicopata.

– Onde estou?

– Você está como eu, condenada a prisão eterna no mundo da solidão e sofrimento.

– Eu morri?

– Sinto muito. – Acenei com a cabeça.

– Por que eu?

Não sabia o que responder, nem eu sabia o porquê ser ela. Nem sabia se havia um porquê.

– Não sei.

– Você também está morto?

– Ao contrário de você, eu mesmo me condenei ao vazio.

Eu não sabia se ela estava entendo exatamente o que se passava. Não é fácil entender a morte, muito menos entender nossa nova existência. Mas de alguma forma eu me senti responsável por aquela alma perdida, e talvez pudesse recompensar meus pecados ajudando-a a encontrar a luz. Agora eu sei, talvez eu não esteja condenado a ficar para sempre na fronteira dos mundos. Agora eu sabia o que precisava fazer.

O súcubo e o comprador de almas

Os sinos badalavam. O som agudo radiava pelo ar e vibrava pelos tímpanos daqueles pobres infelizes. Eles não possuíam mais quaisquer esperança de liberdade; quando ouviam aquele som já sabiam que era hora de entrar para casa, ajeitar a cama das crianças, a janta do marido e dormir; naquele horário não deveria haver mais ninguém nas ruas da pequena cidade de Foster, uma cidade tão ínfima que provavelmente nem estava no mapa. Ela possuía em torno de míseros 100 habitantes, o que é um número demasiadamente insignificante.

Após os badalos das seis horas, o sol mal podia ser visto, as pessoas correram para dentro de suas casas em questão de segundos. Ouviam-se o apavoramento das velhotas implorando a colaboração das pequeninas pestes que corriam e riam debochando da cara de suas vós. As esposas saíam descalças dos bares levando seus maridos pelas orelhas; os comerciantes fechavam seus estabelecimentos em sincronia, os cães desistiam de suas perseguições, os gatos entravam em bueiros, e até os mais pequeninos seres temiam ficar tão expostos. Sem mais demora a cidade estava em silêncio, não se ouvia nem mesmo o assovio agudo do vento.

Após o sino descansar, um rapazinho saiu correndo de dentro da igreja e entrou em uma casa ao lado. A porta já estava aberta, como se já esperasse por ele. Porém antes de  fechá-la, sua visão capta alguma coisa. Ele contrai seus belos olhos verdes e finalmente a imagem se forma  nitidamente em sua retina. Ele não consegue parar de olhar, não se sabe se é por pura curiosidade ou algum encantamento, aliás, era muito linda. Uma mulher com longos cabelos cor de fogo; ela usava um vestido escarlate que voava com o vento, seus lábios carnudos eram tão vermelhos quanto o sangue de um sacrifício.

– Quem é ela? – indagou para si mesmo.

A bela misteriosa encarou o jovem, sorriu e contraiu os lábios excitantemente, despertando um sentimento animalesco no pobre juvenil. Ele não conseguia tirar os olhos dela, estava excitado, mal conseguia piscar, tinha medo de perder a musa de vista, olhar para ela era extasiante.

A mulher se aproximou finalmente, agora ele  tinha certeza de que não se tratava de uma ilusão miraculosa, era real, ou era uma alucinação muito palpável, pois era possível sentir seu perfume afrodisíaco de canela e almíscar; não só isso, sua respiração calma e quente era perfeitamente perceptível.

– Que… quem é você? Não deveria estar na rua numa hora dessa, já bateu o toque de recolher – disse nervosamente. O suor tomava conta do rosto do rapaz, seu coração pulsava mais rápido a cada passo que a mulher dava em sua direção.

– Eu estou perdida, não sei como voltar para casa – respondeu com sua voz suave e delirante.

– Bom, Foster não é uma cidade em que as pessoas costumam se perder, onde você mora?

Ela não respondeu nada, apenas ficou parada encarando-o.

– Eu não posso voltar para casa, eu preciso ficar aqui, quero que você cuide de mim, eu quero ser sua, deixa eu ser sua?

Os olhos do rapaz lacrimejaram. Enxugou as lágrimas da sua boca e  a encarou perturbadoramente, não soube o que responder, então apenas a fitava. Suas pupilas dilataram, seu corpo ardia, não sabia o que era aquilo, só sabia que esse fogo ardente subia cada vem mais por seu corpo. O rapaz teve um momento de sobriedade e saiu do transe ao finalmente pensar numa resposta para aquela pergunta estranha.

– Desculpa, a senhorita precisa voltar para sua casa, eu tenho que entrar agora, não posso ficar aqui conversando.

– Você é tão atraente, tão másculo… – A cada frase, aproximava ainda mais seu belo corpo ao do rapaz, que ficava vermelho e cada vez mais excitado.

– Qual o seu nome? – perguntou o jovem, com uma voz suave e sussurrante, como se estivesse próximo a ter um orgasmo.

– Pode me chamar de Anie.

– Escuta, Anie, realmente não posso ficar com você agora, eu tenho coisas para fazer, mas você pode ficar aqui dentro – apontou para a igreja -, depois podemos resolver o seu caso.

– Por que está me ignorando? Nenhum homem nunca me deixou para segundo plano – começou a alterar a voz.

– Eu tenho tarefas importantes, e você até agora não me disse o que quer.

– Claro, que eu disse, eu quero você!

– Por favor, nem nos conhecemos – o rapaz não tirava os olhos dos seios fartos da moça. Seus desejos carnais estavam latentes com toda aquela provocação. Anie ainda não entendia o porquê tamanha resistência.

A cidade já estava toda quieta, as luzes das casas já haviam sido apagadas; depois do toque de recolher os cidadãos normalmente não tinham muita opção para se entreterem pelo resto da noite, alguns dormiam mais cedo, outros passavam o tempo com sexo, outros jogavam baralho até tarde, em geral era sempre a mesma coisa. Aquelas pobres pessoas não tinham nenhum incentivo à vida, eram oprimidos pelas circunstâncias diabólicas daquela época.

Foster era uma cidade habitada por indesejados convidados sobrenaturais, e todos sabiam disso. Havia seres da pior espécie: demônios, vampiros, bruxas, lobisomens, entre outras coisas as quais uma sociedade comum pouco creem, porém em Foster era diferente, todos sabiam da existência dessas criaturas que atacavam sob a luz das estrelas, e foi por isso que inventaram o toque de recolher, uma medida de precaução, pois as bizarrices daquele lugar por algum motivo desconhecido não podiam invadir a casa das pessoas, mas enquanto elas tivessem na rua, não havia nenhuma impedância para um ataque extremamente feroz e doloroso.

Era primavera, e naquele período os monstros que tomavam conta da cidade davam uma trégua para o local se tornar um campo de batalha entre dois antigos rivais: O súcubo e o comprador de almas. Ambos são antigos demônios que passaram centenas de anos disputando clientes pelos arredores da antiga colônia indígena tupi-guarani. Os anos se passaram mas eles continuaram lá, numa disputa acirrada e eterna. Cada um barganhava da melhor forma que podia.

O súcubo era sorrateiro e sagaz, sempre se aproximava de suas vítimas de forma astuta e furtiva. Quando a pessoa percebia sua presença já era tarde demais. Essa criatura não é uma compradora, não na verdade, é um ladra, alguns a chamam de trocadora, mas compradora nunca. O verdadeiro comerciante era honesto e gentil, pelo menos no momento da publicidade, depois a história mudava, o que não vem ao caso, o importante é que ambos sempre escolhiam o mesmo cliente, e sempre disputavam até o fim pela alma azarada do indivíduo.

Na atual circunstância a vítima da vez já havia sido escolhida. Ele tentou tanto evitar, mas o pobre rapaz nem imaginava que já havia sido pego. É sempre assim, a pessoa nunca sabe que foi pega até acontecer. O destino dele provavelmente já estava traçado, pobre Maicon.

– Eu posso te fazer feliz, é só você ficar comigo, vou te dar tanto prazer que você nunca mais vai querer sair de dentro de mim – Anie já estava segurando forte nas intimidades de Maicon, ele já não podia mais se conter, não demoraria a ceder.

– Como sempre, apelando, não é, Anie? – disse uma voz grave e firme, Anie estremeceu.

Ela olhou para o homem encapuzado que estava atrás, soltou um barulho semelhante a um grunhido, parecia profundamente irritada. Não era a toa, aquele homem era a razão de sua decadência, o ódio era o mais simples dos sentimentos que habitava aquele negro coração.

– Que merda que você tá fazendo aqui?

– Como se isso fosse uma novidade para você. Toda noite eu saio para negociar – respondeu o rapaz. Mal dava para ver seu rosto na escuridão, o capuz de ceifeiro também ajudava a encobrir sua face.

– Você não tem nada que negociar com esse rapaz, ele é assistente do padre, jamais venderia a alma para o capeta.

– Capeta?! – resmungou o rapaz, que até então estava paralisado, mas finalmente entendera o que estava acontecendo – Quer dizer, que… eu…

– Sinto muito, Anie te fisgou antes mesmo que você percebesse, é isso que ela faz, essa sujeitinha ardilosa te seduz, te leva para o coito e depois suga toda sua energia vital…

– Em troca sua alma descansa em paz – interrompe – ao contrário dele, que te leva para o inferno, onde sua alma é torturada e queimada eternamente.

– Não queimo almas Anie, eu ofereço a elas um caminho alternativo.

– Ah tá! Sei, qual foi o caminho alternativo que você deu a Maria Parri? A pobre mulher se enforcou meses depois de fazer um pacto com você.

– Ela simplesmente não era forte o suficiente para aguentar a pressão de ter um prazo, aliás, pactos têm validade.

Maicon não entendeu muito bem se o que presenciara era mesmo real, muito menos sabia se o que estava sentindo era real, ao invés de sentir medo na verdade achou aquela situação um tanto cômica, não é todo dia que se vê o diabo e um súcubo brigando.

– Isso não é uma briga, é uma disputa – falou Anie para o rapaz , que esbugalhou os olhos instantaneamente.

– Mas o que…?

– Você acha isso hilário, mas não tem noção do que realmente importa. As almas, são o que importa. – disse o comprador.

– Merda, eu não vou vender a minha alma, eu sei sobre vocês, todo mundo sabe – gritou Maicon apavorado.

– Você já caiu na rede da serpente, só estou tentando te tirar dela – falou o comprador, calmamente.

– Não há rede, há apenas a felicidade te esperando – disse com um sorriso brilhante e sedutor.

– Esse papo clichê já está batido, você precisa melhorar seus argumentos, Anie!

– Não preciso de um discurso decorado como você, eu só falo a verdade, por isso que parece clichê.

– Eu sei muito bem o que vocês fazem, prometem mil coisas, mas nada é real, só querem sugar as almas das pessoas inocentes – desabafou.

– Não existe pessoas inocentes – disse o demônio, já irritado.

– Isso não vem ao caso, vocês não têm direito de sair por aí ameaçando a vida das pessoas.

– Não ameaço, dou uma escolha a ela – disse Anie, em tom de ofendida.

– Não temos culpa que os humanos são fracos e cedem os caprichos da carne, você por exemplo, se eu não tivesse chegado já teria gozado em cima dessa vadia.

Maicon rebaixou o olhar, pareceu sem moral em frente a situação, não podia contestar, era a verdade o que o comprador acabara de dizer; humanos são fracos e sempre cedem aos caprichos do desejo, mas é isso que torna humano os humanos. De repente levantou a cabeça e sabia exatamente o que precisava fazer.

– É isso, humanos são fracos, sempre cedem, e por isso que coisas como vocês sempre se dão bem. Foster é uma cidade onde monstros não são novidades, as pessoas ficam tão assustadas que acabam abrindo espaço para nojentos como vocês entrarem na vida delas.

– O que significa esse discurso? – indagou o diabo.

– Você acabou de entregar seu segredo, você não ataca pessoas fracas porque são humanos, você ataca pessoas porque são fracas, são suscetíveis às tentações. Mas o que aconteceria se um dia não houvesse pessoas que cedessem a vocês?

– Isso é impossível, mesmo que você não ceda, sempre haverá aqueles que abrem os corações para um bom pacto, só preciso oferecer dinheiro, sucesso e prazeres carnais – respondeu o comprador ironicamente.

– Está cheio de homens que daria tudo para uma noite de sexo com a mulher de seus sonhos, e outras mulheres também – disse Anie passando as línguas levemente pelos lábios.

– Pode até ser, mas não em Foster, a partir de amanhã essa cidade vai ficar livre de vocês.

– Por que acha isso? – indagou desconfiado.

– Por que esse é o meu pedido em troca da minha alma, eu desejo que você nunca mais volte aqui.

– E por que faria isso? Eu posso simplesmente ignorá-lo e encontrar outras almas.

– Você mesmo disse, humanos são fáceis de manipular, se eu sobreviver hoje, pode ter certeza que amanhã todos serão testemunhas de minha luta contra satã, as pessoas terão fé em mim, você acha mesmo que depois disso elas ainda cederão a vocês?

O homem de capuz ficou pensativo, fazia sentido naquilo, mas abandonar uma cidade por causa de uma alma era algo insólito. Mas Foster era uma cidade pequena, não valia tanto assim, ele poderia ir para qualquer lugar depois.

– Pode ser que eu tope – disse o comprador.

– E eu? – perguntou Anie.

– Hoje você perdeu, e assim como eu terá que se mudar da cidade.

– Não vou ter nenhum lucro com isso, você pelo menos ganhou uma alma, e eu?

– Você terá que fazer o mesmo que ele, terá que se mudar – disse Maicon.

– Esse é o nosso destino, batalhar pelas mesmas coisas, será assim até os finais dos tempos.

– Não queria que fosse assim, você sempre ganha os melhores acordos.

– Se um dia você rever seu planejamento de negócio, quem sabe possa me superar um dia.

A súcubo olha irritadamente e tasca um beijo na boca de Maicon.

– Teria ficado com você de graça se quisesse, seria só sua e nem iria doer muito.

– Desculpa, estou me guardando para o amor da minha vida.

Anie sorriu e desapareceu junto à neblina. O comprador permaneceu imóvel e frio.

– Como selamos o pacto? Com um beijo? – perguntou o jovem vendedor.

– Não, selamos com a promessa, enquanto eu estiver fora de Foster você é meu.

– E se você voltar?

– Nunca vou voltar.

– Nem para me buscar, aliás, promessa é promessa.

– Terei de esperar que você morra naturalmente, mas acredite, não tenho pressa, até lá, viva bem.

– Vou viver, obrigado!

O empresário das trevas desapareceu na escuridão da noite. Depois disso Maicon entrou e foi dormir, lembrou-se de uma história que sua mãe lhe contara ainda quando era uma criança, sobre o garoto que enganara a morte. Desejou ser ele, mas sabia que era impossível, então apagou o abajur, fechou os olhos e tentou dormir.

Depois daquele dia Foster não recebeu mais as visitas dos negociantes de almas, só dos monstros de costume que todos já sabiam lhe dar. Os cidadãos viveram bem por bastante tempo, e nem imaginavam a quem devia agradecer por isso.

Maicon viveu até os noventa anos, teve a chance de ver seu último bisneto, depois disso apodreceu no limbo em companhia de outros vendedores de almas. Anie e o comprador nunca mais voltaram para aquela pequenina cidade, mas jamais deixaram de trabalhar.

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